Entre o Estômago e o Absoluto
Não se engane: eu gosto do Sadhguru. Gosto mesmo. Sou até inscrito e seguidor dele nas redes sociais. Mas, vezes ou outra, é natural a gente discordar de quem a gente gosta, né?!
Não se engane: eu gosto do Sadhguru. Gosto mesmo. Sou até inscrito e seguidor dele nas redes sociais. Sadhguru fala com a serenidade de quem conhece os bastidores do cosmos. E isso é sempre admirável: poucos conseguem transformar uma explicação sobre freios, pratos e colunas vertebrais em uma meditação sobre o Absoluto. Ele tem a rara habilidade de pegar um detalhe banal e dali extrair uma parábola sobre o apego humano. É bonito. É profundo. É convincente.
Mas, vezes ou outra, é natural a gente discordar de quem a gente gosta, né?!
Recentemente, assisti a um vídeo em que o mestre indiano nos lembra que, na vida, só existem duas verdadeiras compulsões: comer e morrer. À luz dessa revelação libertadora, o resto do mundo parece estranhamente ocupado tentando sobreviver a uma infinidade de outras “não-compulsões” — curiosamente obrigatórias para qualquer ser humano que não viva em um ashram autossuficiente ou não seja milionário o bastante para nunca precisar pensar em aluguel, contas ou trabalho. Afinal, a simplicidade absoluta é sempre mais simples quando alguém já cuidou de todas as complicações.
No universo que o Sadhguru está propondo, basta entender que o estômago é a única urgência real. Encheu? Pronto: já está meio caminho andado para a iluminação e não precisa se preocupar com mais nada. A partir daí, só resta esperar a morte com graça. A vida é simples — diz ele — e nós é que complicamos.
No universo fora das palestras, porém, existe um detalhe incômodo: para encher o estômago, eu preciso de comida. Para comida, preciso de dinheiro. Para dinheiro, preciso trabalhar. Para trabalhar, preciso morar em algum lugar que me permita não morrer antes de trabalhar. E para morar, adivinha? Preciso de dinheiro outra vez.
É uma roda kármica menos transcendental e mais contábil. Mas acho que essa ele não conhece muito bem...
Sadhguru pode não perceber, mas entre “estômago vazio” e “frango tikka masala” existe uma cadeia produtiva tão longa que faria Darwin reconsiderar a evolução humana. Há agricultores, distribuidores, impostos, inflação, supermercados, contratos, transportes, salários, dívidas, filas, horários, turnos, e, claro, aquela reunião de segunda-feira que, de tão dolorosa, talvez seja a verdadeira prova da existência de samsara.
Sim, comer é simples.
Só não é simples conseguir comer.
E quanto à morte? Ah, sim. Ela é certa. Democrática. Igualitária. Imparcial. Chega para todos — menos para quem acredita que está acima da “identificação”, mas isso já é outra história. De fato, morrer é a única certeza. Mas enquanto ela não chega, é curioso notar que tudo ao nosso redor exige uma quantidade absurda de burocracia para que a existência continue funcional.
Sadhguru diz que a mente humana complica demais. Talvez. Mas há uma explicação menos metafísica: o mundo é realmente complicado, porque foi construído por seres que precisavam sobreviver num ambiente que nunca foi simples. A civilização é o preço pago para não morrermos aos 28 anos por falta de antibióticos ou porque um tigre resolveu ter uma epifania carnívora.
Dizer que tudo se resume a comer e morrer, é lindo desde que você ignore: a economia, a política, o trabalho, os sistemas de transporte, o preço do aluguel, a produção agrícola, o clima, o IPTU, e o fato incômodo de que, para comer com serenidade, alguém teve que se preocupar muito, muito antes de você com tudo isso.
Só alguém que observa o mundo de fora — de muito fora — pode concluir que a vida é “simples”. Aqui dentro, onde moram as contas, os boletos e os seres humanos, tudo é simples apenas para quem não precisa fazer parte do processo ou para quem ainda acredita que vivemos no Éden.
No fundo, Sadhguru não está errado: viver poderia ser tão simples quanto comer e esperar a morte.
Mas para isso, seria necessário ignorar praticamente todo o funcionamento da humanidade.
E talvez aí esteja o ponto mais filosófico de todos:
A simplicidade absoluta só existe para quem está disposto a fingir que o resto não existe.
Link do vídeo que deu início ao meu questionamento:

